Uma moça com um saco na mão cheio de latas, vestindo uma camisa do Brasil, com uma calça e chinelo, toda suja, revira uma lata de lixo procurando por latas num ponto de ônibus em frente a faculdade que eu estudo e diz:
- Que bom que esse pessoal da faculdade bebe bastante.
Ela me vê e pergunta:
-Oi moça, vc faz faculdade ai?
-Sim.
-Que curso?
-Jornalismo.
-Legal Jornalismo. Aparecer na Tv né? Mas só tem um problema que jornalista é muito fofoqueiro. Quanto anos que é jornalismo?
-Quatro anos.
-Hum. Eu ia fazer enfermagem. Queria ser enfermeira. Estudei até o terceiro ano do colegial, sei ler direitinho. Mas ai minha mãe faleceu, depois eu sofri um acidente (ela levantou a blusa para mostrar um cicatriz na barriga, mas eu não quis olhar totalmente), ai meu marido me largou e eu fiquei um pouco tan tan assim da cabeça.
Eu somente olhava e escuta, ela era morena, bonita, com um sorriso que foi bem cuidado (mais bonito que o meu enlatado), e continuava dizendo:
-Queria ter sido enfermeira, eu ia estudar enfermagem (nesse instante ela tinha um olhar distante, ela estava pensativa). Mas eu moro ali embaixo da ponte, meu amigo o Cabelo vende uns livros em frente a faculdade, aí ele me empresta um ás vezes para que eu leia. (nesse momento ela diz consigo mesma: "preciso tomar banho", e eu continuo olhando sem falar absolutamente nada). Agora estou lendo "A cabana".
Eu olhei pra ela, meu ônibus chegou, e continuei muda, pensando em tudo, questões sociais, no mundo, nela. Ela viu que meu ônibus chegou e disse:
-Vai lá jornalista. Xau.
E eu:
-Boa sorte.
obs.:Eu ainda estou quieta pensando no que eu poderia fazer para que o nosso mundo não fosse assim, para que houvesse igualdade ao menos em algumas coisas que vivemos. Direito ao lar, a um trabalho digno, ao estudo, saúde, e tudo mais que os governantes prometem e não cumprem. E fiquei pensando que estamos em mais um ano de eleição, onde tanto dizem que podemos mudar nosso país com apenas um voto, mas eu não consigo ver como consiguiremos mudar a situação social do país somente com um voto, é preciso mais, um gesto de cada um já ajudaria muito. Afinal encontramos pessoas que são instruídas e até mais inteligentes que nós e vivem por aí, nas ruas, passando frio, fome, sem oportunidade. Essa é a palavra que pode começar a mudar o mundo: oportunidade. O pequeno gesto do Cabelo em emprestar livros para que ela leia, já a coloca num mundo de possibilidades e não apenas de fantasias que podem nos proporcionar um livro. Ela pode não ter nada, mas ninguém vai tirar dela o conhecimento, a chance que ela tem de sonhar. Porém e a oportunidade de tornar isso real, quem poderá auxilia-la?
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